Jefferson, premiado por Temer, é o avô do golpe

Ao nomear a deputada Cristiane Brasil como ministra do Trabalho, Michel Temer propicia ao pai dela, o ex-deputado Roberto Jefferson, a realização de seu projeto fisiológico de controlar a pasta em que sempre teve influência, especialmente na delegacia regional do Rio de Janeiro, onde foi acusado de manter um esquema de extorsão e corrupção. Jefferson é o avô do golpe. Foi ele, com a denúncia do que chamou de “mensalão” em 2005, que primeiro feriu o PT de morte, abrindo caminho para o golpe que viria em 2016, com a derrubada da presidente eleita Dilma Rousseff pelos que hoje estão no poder com Michel Temer.

Em 2005, depois que seu indicado nos Correios, Maurício Marinho, foi gravado cobrando propina em seu nome, Jefferson resolveu explodir o governo Lula denunciando a existência do “mensalão”, apelido corrosivo que deu ao esquema de caixa dois com que o PT socorria os aliados para manter a maioria parlamentar. Não se tratava de novidade na política. Novidade era o fato de o PT, apesar de sua intransigência ética, ter permitido que o mecanismo continuasse existindo. O “mensalão” foi um tiro de canhão na imagem do partido, embora seus governos, pelos resultados produzidos, e pela popularidade de Lula,  ainda fossem durar mais dez anos, desfrutando de grande apoio popular. Logo depois da denúncia de Jefferson, a oposição, que hoje é governo, cogitou o impeachment de Lula mas esbarrou em sua sólida popularidade. O “mensalão” resultou na ação 470, que levou Dirceu e outros petistas à prisão, mas não impediu a reeleição de Lula nem as duas eleições de Dilma. Mas com o caso teve início o desgaste que foi se acumulando, contribuiu para a impopularidade de Dilma e criou, finalmente, as condições para o golpe de 2016.

Com sua entrevista bomba a Renata Lo Prete, na Folha de S. Paulo, Jefferson vingou-se do PT, que julgava responsável pela gravação de Marinho, e com o qual já vinha brigando por não ter recebido os R$ 20 milhões pedidos para a campanha municipal do PTB em 2004. Ele criou a lenda de que a política brasileira era um convento habitado por freiras virtuosas, até que o PT chegou ao governo e inventou a corrupção. Foi reconhecendo sua enorme contribuição para o futuro golpe, muito mais que o apoio à reforma da previdência com o fechamento de questão pelo PTB, que Temer o premiou com a nomeação da filha. “Foi um resgate”, como ele mesmo disse. Um resgate do crédito que acumulou com os golpistas ao inaugurar a era da caça a Lula e aos petistas.

Cristiane Brasil apareceu nas planilhas da Odebrecht como recebedora de R$ 200 mil em caixa dois. Não é nada, diante das acusações que pesam contra outros ministros que Temer mantém no governo, fora os que estão presos.  Muito maiores são as façanhas do pai, e ele é que foi o premiado com a nomeação, em mais uma evidência de que Temer faz questão de governar com os grupos mais “carunchados” do sistema, os que melhor representam o fisiologismo e a corrupção.

Ainda no governo de FHC, Jefferson começou a controlar a Delegacia Regional do Trabalho no Rio. Manteve seu domínio no governo Lula, antes do rompimento em 2005, quando disse a Dirceu, numa sessão do Conselho de Ética, que ele lhe despertava seus “instintos mais primitivos”. Depois de ter alguns nomes recusados, ele emplacou na chefia da DRT seu apadrinhado Henrique Barbosa de Pinho e Silva, que seria depois investigado pelo Ministério Público por prevaricação. Agentes de fiscalização foram flagrados extorquindo empresários mas ele os considerou inocentes.

No governo Lula ele indicou Lídio Duarte para a presidência do Instituto de Resseguros do Brasil, o IRB. Em 2005, logo depois do escândalo envolvendo Maurício Marinho, seu preposto nos Correios, a revista Veja publicou matéria informando que Jefferson cobrava de Lídio uma mesada de R$ 400 mil mensais para o PTB, que era obtida junto a fornecedores do instituto. Em depoimento posterior Lídio inocentou Jefferson, o que levou os editores da revista a abrirem o “off” que ele mesmo havia dado falando da cobrança da mesada. Ou seja, para Jefferson não foi difícil forjar a expressão “mensalão”. Ele entendia de mesadas.

Suas denúncias resultaram na instalação de duas CPIs, sendo que a mais importante delas, a CPI dos Correios – presidida por Osmar Serraglio, agora acusado de receber propinas pela Operação Carne Fraca – pediu a cassação de 18 deputados por recebimento de vantagens indevidas. Alguns renunciaram, alguns foram inocentados. Entre os cassados, Jefferson e Dirceu, que também foram condenados pela ação penal 470. Sem mandato, e ainda antes de ser preso, ele se dedicou a eleger Cristiane Brasil como vereadora. Agora, ministra do Trabalho, ela não disputará a reeleição como deputada federal. Seu pai é que tentará se eleger por São Paulo.

Temer nomeou sua filha, usando o ministério do Trabalho, em tempo de grande desemprego, como moeda de compensação a Jefferson pelos serviços prestados no passado e no presente às forças do golpe. Mas ele que se cuide. Se tiver que demitir Cristiane, terá que pensar duas vezes. Jefferson já deu provas de que é um exímio articulador de vinganças, afora a pulsão de seus instintos mais primitivos.

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